domingo, 30 de março de 2025

SONHO LÚCIDO

Àquela altura, já era óbvio que ele estava sonhando e, nesse raro estado de consciência, notou como as coisas e as cores eram nítidas, vibrantes e reais, muito diferentes de suas versões desbotadas que sobrevivem na memória, depois que se acorda.

Uma outra informação da memória desperta, porém, confirmava-se: as ruas eram ali as mesmas do mundo real, mas seus detalhes eram diferentes. Logo, não foi surpresa quando, avançando por aquela rua, deparou-se com um túnel que só deveria existir na rua paralela de cima.

Julgou por bem seguir pelo túnel, e quem sabe chegar à sua casa que, no mundo real, ficava na outra saída do mesmo túnel, ainda que na outra rua. Seguiu pelo canto da ciclovia, entre os carros e a passagem de pedestres, pois nesta, como de costume, pessoas se abrigavam. Mas não chegou a encontrar o outro lado, pois o túnel ali terminava em um imenso paredão natural de pedra.

Ainda processava a situação quando o paredão se abriu, revelando uma parede de aço, cuja fenda vertical, no seu centro, também logo se abriu. Uma nova muralha de aço, esta fechada horizontalmente, surgiu, e também se abriu, dando lugar a uma terceira parede de aço, igual à primeira. Sua fenda vertical se abriu e ele finalmente pode entrar.

Estava agora em uma sala de escritório. À sua frente, no fundo da sala, havia uma mesa, com papéis mais ou menos organizados sobre ela. Após uma breve hesitação, resolveu examinar os documentos. Afinal, se ele fora levado até ali, deveria ser para descobrir algo importante. Entre as muitas frases sem conexão aparente, uma chamou sua atenção:

A revolução é as pessoas se tratarem como irmãos.

Interrompeu sua investigação ao perceber que um homem estava agora sentado à mesana sua frente. Aparentemente era o dono da sala. Encabulado por ter sido pego em sua intrusão, o homem disse, sem jeito:

– Desculpe, não sabia que você estava aqui.

Ao que o outro homem respondeu, achando graça:

– É, eu entrei agora, pela porta.

– Ah... E eu vim sonhando. - disse o intruso, tentando soar natural.

A sala logo se encheu de mais umas três pessoas, que pareciam prestes a iniciar uma reunião.

Vendo que não tinha mais o que fazer ali, o viajante se escusou:

– Bem, vou deixar vocês agora. Já está na hora de eu acordar para o trabalho.

Fechou os olhos por um momento, fazendo força para acordar. Como nada aconteceu, percebeu que não era bem assim que a coisa funcionava. Mas, antes que pudesse tentar outra coisa, sem nada fazer, ele acordou em sua cama.

sexta-feira, 29 de março de 2024

DEUS TE AMA COMO ÉS – DESVENDANDO ROMANOS 1:18-32

A carta de Paulo aos Romanos contém algumas das passagens mais belas e significativas do Novo Testamento. Muitas vezes, porém, é mais lembrada pelo seu primeiro capítulo, usado para defesa de uma fé excludente. E excluir da fé é justamente o oposto da mensagem da carta e das boas-novas de Cristo.

Nosso objetivo, pois, é desfazer o nó de Romanos 1:18-32, trecho facilmente obscurecido pelo véu de nossos próprios preconceitos. Sob uma leitura rasa, a passagem pode afastar uma parcela significativa da população – a população LGBTQI+ – do maravilhoso conteúdo integral da carta e, pior, fazê-los sentir excluídos da própria salvação em Cristo, algo impensável para quem conhece de fato as boas-novas.

Na verdade, o maior objetivo do texto de Romanos é reconciliar cristãos judeus e cristãos gentios na mesma comunidade de fé. Paulo busca evidenciar os dois grupos como dependentes e copartícipes da salvação de Deus em Jesus Cristo e, portanto, iguais. Para tanto, o apóstolo demonstra sua leitura da relação histórica com Deus, primeiro de gentios, depois (já no capítulo 2) de judeus, para chegar a esse ponto comum: o de ter pecado e, logo, necessitar da salvação pela Graça, através da fé em Cristo. O “ter pecado”, no caso dos judeus, exemplifica-se pela desobediência e, no caso dos gentios, pela idolatria.

Assim, antes de tudo, é preciso entender que o ponto principal de Romanos 1:18-32 não é sequer a homossexualidade, mas a idolatria.

¹⁸ A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça;

¹⁹ porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou.

²⁰ Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis;

²¹ porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato.

²² Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos

²³ e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis.

²⁴ Por isso, Deus entregou tais homens à imundícia, pelas concupiscências de seu próprio coração, para desonrarem o seu corpo entre si;

²⁵ pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém! Romanos 1:18-25

Como os gentios não tinham a Lei e nem as escrituras hebraicas, sua relação com o Deus único crido pelos judeus é trabalhada a partir da ideia de revelação natural, que é a percepção do Criador revelado na própria Criação. Paulo postula que os povos pagãos, ao cultuar falsos ídolos, por eles criados, desprezaram a Deus. Este, por isso, os entregou a práticas erradas e contrárias a si mesmos e à própria natureza.

Só aí, como exemplo dessas práticas que são consequência da idolatria, desejo e prática homossexuais são mencionados.

²⁶ Por causa disso, os entregou Deus a paixões infames; porque até as mulheres mudaram o modo natural de suas relações íntimas por outro, contrário à natureza;

²⁷ semelhantemente, os homens também, deixando o contato natural da mulher, se inflamaram mutuamente em sua sensualidade, cometendo torpeza, homens com homens, e recebendo, em si mesmos, a merecida punição do seu erro. Romanos 1:26-27

Mas o que o contexto desses dois versículos revela? Ora, a prática homossexual que o apóstolo condena é unicamente aquela que é consequência da idolatria. Na verdade, nenhum pecado há na prática ou na condição, se não decorrer da idolatria. E, se decorrer da idolatria, a prática homossexual será condenável, tanto quanto o será a prática heterossexual ou a prática não sexual em igual circunstância.

O que caracteriza então a atitude descrita como infame no texto? É o “desonrar o próprio corpo”. Isso quer dizer que a prática pecaminosa é exclusivamente aquela que atenta contra a saúde física ou psíquica daquele que a pratica (ou de outrem). O que atenta contra a natureza de si, causa dano a si. E é evidente que a natureza humana é tão diversa como a própria humanidade. Assim, de uma forma simplificada, só pode haver desvio da natureza na prática homossexual se o praticante for heterossexual. Para o homossexual, ao contrário, poderá ser a prática da heterossexualidade a atentar contra a própria natureza.

Prática x Condição?

Observe-se que a dicotomia prática x condição homossexual é hoje usada por cristãos que querem validar a literalidade bíblica, mas sem se dizer homofóbicos, ou sem correr o risco de ser acusados de homofobia. Postulam, assim, que a condição homossexual é aceita na comunidade cristã, mas a prática, não.

Aceitam o homossexual, desde que ele permaneça casto por toda a vida ou, pior, contrariando a própria natureza, una-se a alguém do sexo oposto, a quem não deseja, fazendo ambos infelizes. O cristão heterossexual que deseja isso ao próximo dificilmente quereria para si tal celibato. Erra, pois, o alvo do mais importante dos mandamentos: amar o próximo como a si mesmo.

⁴ Atam fardos pesados [e difíceis de carregar] e os põem sobre os ombros dos homens; entretanto, eles mesmos nem com o dedo querem movê-los. Mateus 23:4

Não tropecemos nesse uso deturpado da dicotomia “condição/prática”. Existe, sim, uma condição homossexual que antecede a prática, mas que se manifesta nela, de modo que não é possível condenar a ação sem condenar a pessoa. E essa condenação (que é de homens, não é de Deus) leva muitos ao inferno em vida.

Se alguém nasce com determinada condição, essa é a sua natureza, Deus o fez assim, e isso nada tem a ver com idolatria ou pecado. Seu desejo será tão bom e válido quanto qualquer desejo: será bom na medida em que não faça mal ao próximo, a si e à natureza. Pelo contrário, atentar contra a própria natureza homossexual, será um erro contra si, da mesma forma que será, para o heterossexual, atentar contra a própria natureza heterossexual. Já o desejo que não faz mal a ninguém, não pode tampouco ofender a Deus. Pelo contrário, é vida, é presente de Deus.

Idolatria e Pecado

Dissemos que só pode haver pecado na prática sexual, conforme descrito em Romanos 1, se ela decorrer da idolatria. E o que afinal tem idolatria a ver com sexo? Ora, se um indivíduo coloca o próprio prazer no lugar de Deus, ele se torna escravo desse ídolo (o prazer) a ponto de atentar contra o próprio corpo e/ou a própria saúde psíquica. Ele pode, inclusive, sendo heterossexual, cometer esse pecado sem deixar o âmbito da prática heterossexual. Se o prazer se torna um ídolo, ele leva à compulsão. A compulsão sexual, como qualquer compulsão, escraviza. O que escraviza, destrói. O que destrói, levando à morte, é pecado, é errar o alvo da felicidade.

Mas a questão sexual é apenas um exemplo. As consequências de pôr qualquer coisa no lugar de Deus (não apenas o prazer, mas o ego, a riqueza, a religião, ou o que quer que, sendo relativo, faça-se absoluto) são mais amplamente generalizadas pelo apóstolo logo a seguir:

²⁸ E, por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem coisas inconvenientes,

²⁹ cheios de toda injustiça, malícia, avareza e maldade; possuídos de inveja, homicídio, contenda, dolo e malignidade; sendo difamadores,

³⁰ caluniadores, aborrecidos de Deus, insolentes, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais,

³¹ insensatos, pérfidos, sem afeição natural e sem misericórdia.

³² Ora, conhecendo eles a sentença de Deus, de que são passíveis de morte os que tais coisas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem. Romanos 1:28-32

Pode alguém sinceramente se dizer inculpável de todos esses vícios? Portanto, o cristão que se acostumou a julgar o próximo por sua condição sexual ou de gênero, deve lembrar-se, pelo menos, que Paulo diz também que todos estamos na mesma condição diante de Deus: depois de associar os gentios ao pecado, ele diz que os crentes na Lei e nas escrituras igualmente pecaram, não sendo melhores e, portanto, não se qualificando para julgar ninguém.

¹ Portanto, és indesculpável, ó homem, quando julgas, quem quer que sejas; porque, no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas; pois praticas as próprias coisas que condenas. Romanos 2:1

Legalismo e Idolatria

⁶ Agora, porém, libertados da lei, estamos mortos para aquilo a que estávamos sujeitos, de modo que servimos em novidade de espírito e não na caducidade da letra. Romanos 7:6

As listas de pecados e de virtudes são úteis quando estamos em um estado infantil da consciência. Porém, em Cristo, já não estamos mais em um estado infantil de consciência, pois o Espírito Santo habita em nós, e é esse Espírito que nos ajuda a discernir o certo do errado.

¹¹ Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de menino. 1 Coríntios 13:11

Em Gálatas 3:24-25, Paulo diz que a lei foi nosso guardião (aio, tutor ou pedagogo) até a vinda de Cristo, e que agora que veio o caminho da fé, não precisamos mais da lei como guardião.

Em nosso estágio infantil, não cometemos “tal coisa” (o pecado), porque “tal coisa” desagrada a Deus, que, ofendido, nos castigaria. A morte, na lógica infantil, é o castigo pelo pecado. Já em nosso estágio maduro de consciência, sabemos que Deus, que é amor, não castiga. O pecado não causa a morte porque é pecado. O pecado é pecado porque causa a morte. Entendendo isso, não precisamos de lista de pecados. É isso, simplesmente, o estar livre da Lei de que fala Paulo. Então, o legalismo, a lista de pecados e virtudes, não nos é mais necessária, exceto a título de exemplo ilustrativo.

Toda lei é exemplificativa, de caráter didático. Porém, nossa tendência muitas vezes é pegar uma lista exemplificativa e torná-la exaustiva e absoluta. A letra da lei torna-se então um ídolo: verdade absoluta gravada em pedra para adoração. Pior: quando a obsessão nos domina, a lei opera para estimular o que proíbe: quanto mais se diz “não faça tal coisa”, mais se reforça a tentação de fazer tal coisa.

⁸ Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, despertou em mim toda sorte de concupiscência; porque, sem lei, está morto o pecado. Romanos 7:8

Libertos da Lei, podemos viver uma vida de justiça, evitando o que causa a morte: o que tem consequências ruins para o próximo, para si, para o planeta. Por isso Jesus diz que toda a lei e os profetas se baseiam nestes dois princípios: ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo (Mateus 22:40), e Paulo reverbera em Romanos 13:8-9: quem ama o próximo tem cumprido a lei, pois quem ama não adultera, não rouba, não mata, não cobiça e, se há qualquer outro mandamento, tudo nisso se cumpre: ama teu próximo como a ti mesmo.

Porque se Deus é todo-poderoso, nada pode ofender a Deus, exceto o que ofende a sua criação. Quem não ofende a qualquer elemento da criação, não pode ofender a Deus. Mas se você ama o próximo, a si mesmo e à natureza, ama também a Deus, e vice-versa: se você ama a Deus, ama a criação. Todas as virtudes daí decorrerão.

A paz do Senhor

Se, portanto, você é uma pessoa cheia de amor a Cristo e ao próximo, sendo, ainda, por acaso, homossexual ou qualquer outra condição fora da norma da tradição, não deixe que ninguém macule sua fé. Viva sua vida com a mesma dignidade, sabedoria e prudência desejável por qualquer pessoa e por qualquer discípulo de Jesus, independente de condição. Você não deve ser cobrado nem mais nem menos do que ninguém: viver de forma justa, com respeito, amor, sabedoria e prudência, que são frutos do Espírito que habita em nós.

Se possível, tenha paz com todos os homens. Mas, se alguém não quer ter paz com você, pois não aceita sua natureza, entregue essa pessoa a Deus em oração e não se exponha ao mal que ela possa lhe fazer. A neurose é dela, não é sua. Ela vai dizer que é Deus que não gosta do que você faz ou deixa de fazer, mas na verdade é ela. No tempo certo, haverá a reconciliação. Até lá, viva em paz e feliz, consciente dos próprios limites, essa é a paz de Deus.

O fardo de Jesus é leve, foi ele que o disse. E não são poucos os que têm atentado contra a própria vida, pelo ensino errado de que Jesus impõe um fardo pesado. A tal “cura gay”, além de inviável e desnecessária, é pecado, pois leva à morte: à morte em vida de milhões que vivem em tormento de culpa, por se sentir incapazes de agradar a Deus. Perdem a vontade de viver pelo preconceito dos outros. E se o preconceito, qualquer que seja, leva pessoas a perderem a vontade de viver, o preconceito é pecado, pois seu fruto é a morte.

²³ porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor. Romanos 6:23

Quanto aos que chegaram ao lamentável e trágico extremo de tirar a própria vida, por não suportar o peso do fardo que os homens, e não Deus, colocaram sobre eles, ao chegar do outro lado, encontram Jesus, que lhe diz, amorosamente: “Meu filho, não precisava de nada disso. Nunca precisou. Eu te amo do jeito exato que você é.”

Se há algum desafio em aceitar Jesus, é justamente esse: aceitar o fato de que Jesus nos aceita como somos, não importa o que os outros digam. O dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo, e isso não é uma promessa apenas para o além: vida eterna é uma vida plena de sentido já agora. Vida eterna é o sublime alívio e a gratidão de saber que Deus nos aceita como somos, é poder viver em paz com Deus, respeitando ao próximo e a si mesmo, respeitando a própria natureza, seja ela heterossexual, homossexual, assexual, ou tão diversa quanto diversa é a própria Criação. A vida eterna, fruto da graça de Deus, é a paz consigo, com o próximo, com a natureza e, consequentemente, com Deus.

³⁸ Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir,

³⁹ Nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor. Romanos 8:38-39

E quem diz isso é o próprio apóstolo Paulo, tão complexo e aparentemente contraditório quanto qualquer um de nós. Assim Deus nos fez, assim Deus nos ama. Viva em paz. Seja feliz.

terça-feira, 12 de outubro de 2021

SAL DA TERRA

“Fé Cega, Faca Amolada”, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, é um clássico dos mais sofisticados da MPB. A gravação original, de 1975, com as vozes de Milton e Beto Guedes e músicos como Wagner Tiso e Toninho Horta, é hipnotizante.

“Fé Cega, Faca Amolada” é também uma provocação. Em seu uso geral, expressão que dá nome à canção é a síntese mais direta do potencial destrutivo da fé e da religião. Será disso que fala a letra?

“Agora não pergunto mais aonde vai a estrada
Agora não espero mais aquela madrugada
Vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser faca amolada
Um brilho cego de paixão e fé, faca amolada

Deixar a sua luz brilhar e ser muito tranquilo
Deixar o seu amor crescer e ser muito tranquilo
Brilhar, brilhar, acontecer, brilhar faca amolada
Irmão, irmã, irmã, irmão de fé faca amolada

Surpresa. O eu lírico que a tal fé cega não parece ser um fanático ou obstinado, mas alguém cheio de alegria, leveza e um entusiasmo que contagia. E esta canção é apenas um dos exemplos da abordagem da fé na obra de Milton Nascimento e de seus colaboradores.

A fé, nas letras de Milton, é muito diferente daquela fé que mata e morre a pretexto de recompensa futura. Ela não abdica da vida, nem se contrapõe a ela. Pelo contrário, é fé na vida, alegria e combustível para viver o tempo presente. A faca não é arma, é ferramenta para viver e resistir, apesar mesmo daqueles que empunham as armas.

Outro exemplo é “Maria, Maria” (1978), de Nascimento e Fernando Brant.

“Maria, Maria, é um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta
Uma mulher que merece viver e amar
Como outra qualquer do planeta

Maria, Maria, é o som, é a cor, é o suor
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que ri quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta

Mas é preciso ter força, é preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca, Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria

Mas é preciso ter manha, é preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca possui
A estranha mania de ter fé na vida

Os versos acima são tão compatíveis com a missa quanto com a praça. A fé segundo Milton não é ópio, não aliena o povo, antes, religa-o a si mesmo. Ela não se opõe à cultura. Pelo contrário, é manifestação cultural que demonstra a força do povo e desperta a fé do próprio povo em si mesmo.

Em um tempo e lugar movidos pela crença assassina, é difícil enxergar a dimensão positiva da fé. Pela via da fé, a pilantragem soube cativar o povo como ninguém. Um exército de crentes foi mobilizado na defesa cega de charlatães, aproveitadores e mercadores da própria fé.

Porém, essa mesma pilantragem pseudopiedosa está matando o povo que nela creu. Vai cair a ficha: estamos, afinal, falando de homens. As consequências políticas e espirituais dessa decepção, que não tarda e é do tamanho do Brasil, são imprevisíveis.

Negará o povo crente a fé que é constitutiva de si mesmo? Ou mudará a direção dessa faca amolada, tornando-a de arma a ferramenta do amor ao próximo e da ajuda mútua, tão poderosamente revolucionária quanto o ensinou o próprio Cristo? Não se pode afirmar. Mas podemos continuar cantando com Milton:

Tenha fé no nosso povo que ele resiste
Tenha fé no nosso povo que ele insiste
E acordar novo, forte, alegre, cheio de paixão

Vamos, caminhando de mãos dadas com a alma nova
Viver semeando a liberdade em cada coração
Tenha fé no nosso povo que ele acorda
Tenha fé no nosso povo que ele assusta

(“Credo”, Milton Nascimento e Fernando Brant, 1978)

O CINEMA E A ESSÊNCIA DO FASCISMO

O que é o Fascismo de que tanto se fala? Para quem sabe pouco ou nada sobre o conceito, podemos defini-lo como a política do domínio pela força. Existiu um movimento específico, o fascismo italiano dos anos 20 a 40, que originou o termo. Mas ele passou a também ser utilizado para um fenômeno político maior, do qual o Fascismo Italiano foi a experiência original, e o Nazismo alemão, a experiência radical.

A partir de certo ponto, porém, generalizações se tornam problemáticas. Ao longo das décadas, grande parte da militância política usou a palavra “fascista” retoricamente para desqualificar quem quer que estivesse à direita de si. O resultado disso foi a banalização da palavra e, quando um fascismo de verdade voltou a ter força, o nome havia perdido a capacidade de advertir.

Conclusão: se, por um lado, o fascismo é muito mais que um movimento específico de um tempo e lugar na História, por outro, a generalização de seu uso não pode ser infinita. A própria definição acima proposta, de “política do domínio pela força” é uma boa explicação introdutória, mas gera novos questionamentos: o Império Romano e a Inquisição Espanhola eram fascistas? Quais os problemas do uso anacrônico do termo? Quais as consequências de juntar em uma mesma categoria nazifascismo e stalinismo? Quais as consequências de não fazê-lo?

Bom, parece que o segundo passo nessa discussão é limitar o fenômeno fascista a um contexto específico, mas não tão específico quanto à Itália e a Alemanha dos anos 1920 e 30. O contexto que dá origem e força ao fascismo é o da defesa do interesse da burguesia capitalista em períodos de crise econômica.

É claro que, para uma resposta mais consistente, teríamos de recorrer à imensa reflexão existente sobre o tema. Hannah Arendt seria referência inescapável. O dicionário político de Norberto Bobbio, também. O texto que mais me influenciou sobre o assunto “Os Fascismos”, de Francisco Carlos Teixeira da Silva, seria revisitado. Os manuais de História do Século XX na estante também poderiam ser úteis. Em mais de década que se passou desde que terminei o curso de História, houve a ascensão do cyber fascismo, e muitos novos trabalhos, como o de Jason Stanley, geraram repercussão. E estamos falando só do que me vêm à mente agora.

Isto aqui, no entanto, não se propõe a ser uma tese de mestrado. Quando muito, é um ensaio. Então, minhas fontes serão apenas os filmes que vi nesse período, e que me ensinaram a identificar alguns sintomas do pensamento e do discurso fascista.

1-      Autoridade da Força e Criminalização do Inimigo

Em “Investigação sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita” (1970), de Elio Petri, o policial vivido por Jean Maria Volonté quer provar que pode cometer crimes impunemente. Sua tese é um dos pontos centrais do fascismo, a saber, que a autoridade se dá, não pelo respeito à lei, mas pelo exercício do poder. Quando a autoridade se dá unicamente pela força, adversários políticos se tornam criminosos e vice-versa.

2-      A Morte da Verdade

Reza a lenda que quando o cineasta Fritz Lang se recusou a servir o Terceiro Reich, alegando ser judeu, os nazistas teriam replicado: “não se preocupe com isso, nós dizemos quem é judeu e quem não é”. Para que criminosos e adversários políticos sejam simplificados em uma só categoria, é preciso alterar a realidade. Isso é característica fundamental, mas não exclusiva, do nazi-fascismo. Tanto que talvez o exemplo mais emblemático dessa prática no cinema seja o julgamento fictício em “A Confissão” (Costa-Gavras, 1970), filme passado na Tchecoslováquia de 1951, sob domínio soviético.

3-      Capataz da Burguesia

Mas, se fascismo e stalinismo compartilham muitos de seus pontos essenciais, o primeiro tem como especificidade seu papel na história do capitalismo. Na alegoria política “1900” (1976), de Bernardo Bertolucci, o cruel personagem de Donald Sutherland representa o fascismo: é o capataz das classes dominantes, que ganha seu poder arbitrário para defender a propriedade privada.

4-      A Máquina Decide por Mim

Numa cena do documentário “Noite e Neblina” (1956), de Alain Resnais, guardas do campo de concentração recém-liberto são mostrados em sequência. Todos repetem o mesmo mantra: “não sou o responsável”, como explicação para os horrores ali encontrados. Quando um sistema autoritário toma todas as decisões pelo indivíduo, ele não precisa se responsabilizar por nada. Esse é o prêmio dos que entregaram sua liberdade. Com ela, vai-se também seu senso crítico e sua humanidade. Viram engrenagens na produção industrial da morte.

5-      Ódio à Diferença

Em “O Conformista” (1970), de Bernardo Bertolucci, o personagem de Jean-Louis Trintignant é obcecado pela normalidade, por razões puramente subjetivas. Sua busca por “ser normal” encontra abrigo perfeito na negação da diferença, proposta pelo regime fascista de que se torna agente. Mas o ódio à diferença não nasce nos corações por imposição de um regime. Pelo contrário, é nesse ódio pré-existente que o fascismo encontra as bases para aumentar seu poder. Cria-se então uma relação de retro-aimentação crescente: o ódio alimenta o regime, que alimenta ódio, que alimenta o regime... No limite, dá-se o extermínio. Mas não é o extermínio que faz o fascista, é o fascista que faz o extermínio.

Compartilhadas essas reminiscências cinéfilas, fica o convite para um estudo mais aprofundado e acadêmico a quem se dispuser. E, para quem não se dispuser, reflexão suficiente para que tirem suas próprias conclusões.

domingo, 5 de setembro de 2021

A MECÂNICA DA CRUZ

O que é essa cruz de que tanto falam os cristãos? Será que eles mesmos entendem do que estão falando? Se entendermos “entender” em termos puramente intelectuais, é bem possível que não. Não é tarefa fácil explicar ou entender via racionalidade técnica o que está muito além da compreensão intelectual humana. Mais fácil é entender os efeitos da cruz na vida de quem nela crê. Por sorte, isso também é tudo que de fato importa.

O efeito prático da cruz é o exemplo. O rei do mundo veio para servir, e a cruz é a manifestação visível disso. Para que seu ensinamento fosse sólido, era preciso que sua própria vida exemplificasse suas palavras.

Imagine um pastor que seja acumulador de riquezas. Um que ostente carros importados, relógios caros, um supersalário e ganhos de capital. Como ele teria moral para ensinar os fiéis a não acumularem tesouros na Terra, “onde a traça come”? Para ensinar que “não se pode servir a Deus e às riquezas ao mesmo tempo”? Para lembrá-los que Jesus disse ao jovem rico “venda todos os seus bens e dê aos pobres”? Pois é, ele não teria moral para ensinar as palavras de Cristo. Da mesma forma, se o Messias ensinou que o maior é aquele que serve, e não aquele que exerce domínio, então sua vida teria de ser coerente com isso.

É no exemplo de serviço que está a força da pregação. E a pregação de Jesus é essa: o caminho é o serviço, e não o domínio. Esse ensinamento salva do pecado, pois a base de todo erro é o desejo de dominar. De dominar o outro, de submetê-lo à própria vontade, de acumular poder, de controlar todas as circunstâncias, de se colocar, em última instância, no lugar de Deus.

Por sua vez, Deus, que é todo poderoso, poderia dominar o homem, e impedi-lo de errar. Mas aí seria como o pai que diz: “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. Sua prática não teria coerência com seu ensinamento. Agiria pelo domínio, e não pelo convencimento. Por isso, antes da fundação do mundo houve a Cruz: o auto esvaziamento de Deus, ao permitir que o homem tivesse a possibilidade de errar.

E, ainda no terreno do exemplo, o Messias não veio só para morrer: veio para morrer e ressuscitar. A ressurreição nos ensina a confiar no poder Deus para além da morte. Isso também salva: salva do medo, do medo de morrer e do medo de viver.

Nada disso exaure o assunto, pois não se explica ainda a lógica de como o sacrifício de Jesus na cruz paga os pecados dos homens. Há muitas explicações teológicas para tal questão, mas nenhuma convence realmente a mente. Explicações teológicas sofisticadas geralmente só convencem aqueles que já de antemão creram com o coração, pois é com o com o coração, e não com o intelecto, que se crê. Para o crente, em última análise, bastará a explicação de que “Deus assim o fez porque quis”. E é por isso mesmo que a explicação técnico-racional é totalmente dispensável. Queremos entender em termos de física newtoniana o que está além até mesmo da física quântica. A “mecânica da cruz”, se é que existe, é inalcançável para nós, ao menos neste mundo.

domingo, 22 de agosto de 2021

O ANJINHO DO AMOR

Hoje ela faria três anos, mas não deu tempo. De repente, não quis mais comer, nem brincar. Preocupação, dúvida, emergência veterinária, internação, desespero... Não resistiu. Em apenas um dia, uma doença silenciosa havia levado nossa anjinha de amor para ser um anjinho no Céu. Ficamos de coração partido.

Nesses quase três anos, Cecy foi a companheirinha da minha mãe em tempo integral. Com a pandemia, também pudemos passar bem mais tempo com ela.

A coisa que ela mais amava na vida era comer com companhia. Vinha ao nosso encontro, e imediatamente tentava nos conduzir para o cantinho da ração. Se alguém se sentava ali, ao seu lado, ela comia, pedia carinho, esfregava o focinho no móvel, ronronava, se refestelava no chão... Satisfeita, ia brincar ou dormir, mas daí a pouco estava chamando de novo para a ração. Se dependesse dela, a gente passava o dia todo indo lá, para vê-la comer.

Sempre que podia, eu me sentava ali com ela, em um banquinho. E ficava. Às vezes olhava, lá de baixo, para o relógio na parede. 8 horas... Às 9 eu estava lá de novo, e às 11. Meia-noite, e eu pensava: por que afinal estou passando tanto tempo sentado neste banquinho? E o olhar da Cecy, transbordando amor, dava-me a resposta. Aquele era o sentido da vida.

sábado, 14 de agosto de 2021

O PAI NOSSO É NO PLURAL

É impressionante que uma sociedade que se orgulha de seu caráter cristão não aprenda a raciocinar coletivamente, mesmo quando sua oração mais conhecida dá todas as pistas para esse aprendizado. O Pai Nosso é todo no plural, e harmoniza didaticamente o indivíduo ao seu entorno.

Se não, vejamos. O Pai do céu não é só meu, é nosso. O pão da terra também é nosso, não é meu. Não basta que o pão esteja no meu carrinho de compras, é preciso que ele seja dividido, ou melhor, multiplicado... O pão do outro não se difere do meu pão. Da mesma forma, a necessidade do outro é também a minha necessidade.

O Pai Nosso intercede por nós, e não por mim. Pede-se que Ele nos proteja, e não que me proteja deles. Assim, quando eu digo “não nos deixes cair em tentação”, peço, ao mesmo tempo, que eu não erre contra o outro e que o outro não erre contra mim. Em consequência, o outro será livre do mal que eu fizer a ele, e eu serei livre do mal que ele fizer a mim. Antes de pedir livramento do mal, tenho que eu também estou sujeito a criá-lo.

Pelo Pai Nosso, oramos pelos que nos fazem mal, imitando e obedecendo Jesus. Imitando, pois assim ele o fez na cruz, e obedecendo, porque ele nos disse que orássemos pelos nossos inimigos. Igualmente, o Pai Nosso só nos permite pedir perdão pelos erros depois que já temos a capacidade de perdoar o erro alheio.

A princípio, nossa tendência é pensar em separado as “nossas ofensas” das ofensas cometidas por outros a nós. Esse verso pode soar até como barganha: perdoa-nos, porque, afinal, perdoamos também aqueles desgraçados que nos prejudicaram tão aviltantemente que se eu pudesse... Muito antes do amém, o pensamento encheu-se de ofensa, e o coração, de julgamento.

Julgar é parte do aprendizado da vida, e até mesmo inevitável em certas circunstâncias. Mas o julgamento também tem seu preço espiritual, pois cada sentença é uma espada que apontamos para nossa própria cabeça. Portanto, não é sábio julgar além do que nos cabe.

Pois bem, sabemos que enfim estamos aprendendo a pensar coletivamente quando não separamos mais as nossas ofensas das ofensas alheias. Somente ao entender que em “as nossas ofensas” estão também incluídas as ofensas dos outros dirigidas a nós, o nosso “assim como nós perdoamos aos nossos devedores” passa a ser realmente sincero.

Com esse exercício de empatia, esvaziamos o coração do julgamento que não nos cabe e nos envenena. E isso é apenas o princípio do que uma fé altruísta pode fazer, quando deixamos que ela nos ensine a sair do raciocínio puramente individualista, para onde o mundo inteiro, incluindo o mundo da fé, parece apontar.

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

NATURALIZAR A MORTE

Um dos nossos maiores problemas enquanto sociedade é a incapacidade de raciocinarmos coletivamente. A dimensão coletiva do ser humano é tão importante quanto a individual, ambas se complementam e uma não substitui a outra. Uma postura pode ser, do ponto de vista individual, desejável, mas detestável do ponto de vista coletivo. O contrário também pode acontecer. Se raciocinamos como indivíduos sobre aquilo que é coletivo, erramos. E a incapacidade de pensar como sociedade tem nos distanciado de qualquer ideal de desenvolvimento.

Do ponto de vista individual, a naturalização da morte não é reprovável. Quando alguém morre, tendemos mesmo a buscar consolação e significado no aspecto natural do evento: “ele já estava bem velhinho”, “parou de sofrer”, “viveu muito bem”, “está melhor do que nós”. Essa postura, ainda que nunca chegue a ser fácil, é necessária, e mesmo sábia, diante do inevitável.

Não há nenhuma sabedoria, porém, na naturalização da morte pela ótica coletiva. Quando, coletivamente, naturalizamos a morte, a consequência é a perda daquele que talvez seja nosso único valor comum ainda sólido: a preservação da vida. Esse valor é o que nos mantém civilizados. Se naturalizamos a morte coletivamente, banalizamos o mal. E, a partir daí, o que há é o fascismo.

sábado, 7 de agosto de 2021

PRÓS E CONTRAS DO FIM DO MUNDO

É uma tendência natural, o ser otimista. Ainda mais nos otimistas. Sim, é uma forma de amortizar a realidade, mas não me venham dizer que é irracional. A força que uma perspectiva positiva traz ajuda a seguir em frente e aumenta as chances de fazer da própria realidade a melhor possível. Claro, às vezes ela é indomável, e se impõe, acima das nossas expectativas. A realidade, digo. E se impôs. O meteoro estava chegando, e não era possível mais se enganar.

O que fazer diante disso? O otimismo ilusório só nos traria a negação, e com ela a morte. O pessimismo niilista, de modo ironicamente semelhante, nos tornaria insensíveis à morte, que abraçaríamos, fingindo ser coragem a nossa covardia. O realismo, desse modo, tornou-se um imperativo, para podermos nos adaptar ao inesperado. Subitamente, surgiram novas necessidades práticas, que não nos davam tempo para lamentação. Havia uma nova vida a ser vivida, e ela não parecia ser fácil, nem agradável.

Por quanto tempo? Não sabíamos. Sairíamos dessa com vida? Tampouco se sabia. Quando? Não existia mais quando. Talvez sobrevivêssemos, mas era preciso, antes, negar a própria vida.

Não, não se tratava de negar a vida em seu sentido amplo. Esta ainda existia, e permanecerá. A vida, a mesma que agora nos atordoava, não poderia ser negada, nem ignorada, ainda que quiséssemos. O que se apresentava como solução era negar aquilo que nossa psiquê se acostumara a entender por vida. A ideia, na verdade, é mais leve do que a palavra “negar” sugere. O termo mais correto seria “desprender-se”.

O desprendimento mostrou que aquilo que a nossa psiquê se acostumara a chamar de vida era muito menos que a nossa vida. Era apenas uma vida entre muitas possíveis. Era, na verdade, a nossa rotina. Ela nos trouxe segurança por muito tempo, mas deixou de fazer sentido. Dela, nos desprendemos. A vida passou a ser aqui e agora. E o que tinha ficado lá fora ficou para depois, ou para nunca mais.

O desprendimento tem o poder de nos libertar de pesos excessivos e desnecessários. Essa foi a primeira grande lição do fim do mundo, e dela nos beneficiaremos para além desse evento.

A propósito, a essa altura, o meteoro já havia caído, e o mundo como conhecêramos não existia mais. Entre os sobreviventes, alguns tentavam reduzir os danos, enquanto outros se entregavam à ilusão, à embriaguez ou a ambas. O primeiro caminho era árduo.

Logo ficou claro que a nossa psiquê precisava também de cuidados. O realismo, seco, puro, leva à depressão, a morte em vida. Disso já sabíamos. O que se assemelhava a um desafio era conciliar o desprendimento realista, que mantínhamos debaixo do braço, com a esperança, que, por receio, tínhamos desligado. Reativá-la parecia agora questão de sobrevivência.

Então tivemos procuramos uma velha ferramenta, a fé. Tiveram motivo para se sentir gratos aqueles que a tinham guardado, por via das dúvidas, em algum canto empoeirado da bagagem que restou.

Fé não é necessariamente sinônimo de crença, apesar de ambas muitas vezes caminharem juntas. Mas esta última pode ter muitas faces. Se a crença na força superior que nos protege traz fé, a crença na força superior que nos castiga traz medo. São dois caminhos opostos e inconciliáveis. Pode mesmo haver fé independente de crença, a fé na vida, que não pede maiores explicações. Basta saber que se está vivo para ter fé na vida. A fé simplesmente é uma luz verde que acendemos no peito, e que torna o caminho à frente mais bonito.

Somente ao religá-la, percebemos que não havia contradição entre o desprendimento e a esperança. Não precisávamos forçar respostas ou alimentar ilusões, mas, sempre que necessário, vislumbrávamos o horizonte mais bonito sob a luz verde, e isso nos dava mais prazer e saúde. Quando a vida nos pisava, pedíamos ao bom Deus que nos ajudasse, dizíamos à vida: “vida pisa devagar”, ouvíamos um pouco mais de Belchior.

E assim, os dias passaram. Pareciam muitos dias, sucessivos, por vezes iguais, quase sempre curtos. A esta altura, tudo indica que vamos continuar existindo. Será como antes do meteoro? Certamente que não e, no fim das contas, nem desejaríamos que fosse. Isso quer dizer que aprendemos lições que nos farão mais fortes, depois de tudo? Depende do cada um consegue ver.

Objetivamente, a morte, o caos e a desigualdade ainda ocupam o primeiro plano da realidade presente. Enquanto trapaceiros e iludidos chamam de fé o individualismo irresponsável, niilistas se apressam em decretar que, se aprendemos alguma coisa, é que, venha meteoro que vier, nunca aprenderemos nada mesmo. Paciência, dirão.

Ironicamente, é ela que os desdirá. Ela, a paciência, o último e inegável legado do fim do mundo. A paciência nos permite continuar plantando o bem independente de tudo à nossa volta, dos outros e até de nós mesmos. Sim, um pouco mais de paciência, afinal, essas lições preciosas foram guardadas por muitos, e é até possível enxergar, sob a tal luz verde, sua manifestação lá na frente, em um futuro melhor.

sábado, 31 de julho de 2021

...É O QUE FAZ MAL À CRIAÇÃO

Com base no conceito de bárbaro proposto pelo filólogo Tzvetan Todorov em “La Peur des Barbares”, entendemos por civilizado aquele que considera qualquer outro ser ou população como humano e, portanto, inimputável de tratamento que ele mesmo se recusaria a aplicar a si mesmo. Nesse sentido, o avanço civilizatório pode também ser relacionado ao ensino de Cristo, independentemente de religião.

Sim, a religião cristã institucionalizada, ao longo dos séculos tem se envolvido promiscuamente com as disputas mundanas de poder, afastando-se com frequência do próprio ensinamento que se propõe a difundir. Leva, no entanto, debaixo do braço, as palavras de Jesus, e essas influenciaram o mundo, independentemente das instituições eclesiástica (e, por vezes, contra os próprios interesses dela).

Com idas e vindas, aos trancos e barrancos, as sociedades caminharam rumo a valores do humanismo e, finalmente do direito humano. Hoje, e esperamos que cada vez mais, a própria natureza assume protagonismo como sujeito de direitos. Muito do que embasa todo esse arcabouço de valores já estava na moral de Cristo: igualdade, amor e alteridade.

Essa moral deveria ser, para o crente, parâmetro da permanência ou caducidade de uma norma espiritual dentro do cânon bíblico. Em outras palavras, o crente na divindade de Jesus tem em suas palavras a medida que diferencia, na Bíblia como um todo, o que é contexto histórico e cultural do que é verdade permanente. Permanece que o que faz mal ao ser humano, o que faz mal a si, ao próximo e ao planeta, ofendendo criação e Criador, é o condenável. Jesus completa a Lei ao resumi-la, ao enxugá-la ao essencial, o amor, que faz com que todo o resto se torne detalhe.

Muitos cristãos, no entanto, sacralizam a cultura do tempo bíblico, colocando no altar os aspectos transitórios da lei em detrimento de sua essência. Assim, leis que só fazem sentido em seu contexto histórico e cultural passado, são tornadas universais, enquanto a lei universal, a lei do amor, essa mesma, a Lei de Cristo, é relativizada.

O argumento legalista (está escrito) é o que foi usado pelos mestres religiosos para acusar Jesus, que curava no sábado. Não pode, diziam, porque assim está escrito. Jesus respondeu: “É lícito no sábado fazer o bem ou fazer o mal? Salvar a vida ou tirá-la?” (Marcos, 3:4).

Jesus corrige os religiosos evidenciando que fazer o mal era fazer aquilo que tirava a vida. Obrigar a si mesmo ou a outro a trabalhar de sábado a sábado, sem descanso, danifica o corpo e exaure a mente. É, em suma, tirar a vida, e um povo que acabara de sair da escravidão entendia isso muito bem. Em contrapartida, promover aquilo que salva a vida, seja qual fosse o dia, não poderia, pelo princípio da razoabilidade, ser objeto da mesma proibição.

“O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado.” (Marcos 2:27)

A lei é para o ser humano, e não o contrário. Se algo é proibido ou, em uma relação mais madura, se não convém, é porque faz mal. A partir disso, o que “está escrito” é apenas uma lista exemplificativa, que deve ser contextualizada e validada por essa mesma Lei maior, a Lei do Amor. Faz mal ao ser humano? É contra a Lei do Amor. Viver o amor é entender-se uno ao outro e ao restante da criação. Em Deus, todos somos um, e o mal a qualquer indivíduo é mal ao todo. Essa é a Lei e os Profetas. O resto é História.

O QUE ABORRECE O CRIADOR...

“Procure saber o que é abominação a Deus”. Foi assim que um irmão de fé encerrou a discussão sobre a proeminência ou não de uma rígida moral sexual na vida cristã. Naquela hora, não fui além. Mas a proposição voltava à mente, de tempos em tempos, quando me pegava pensando no assunto. Aqui se segue a tentativa de sintetizar algum estudo e reflexão nesse sentido.

Comecemos pela impressão que o termo causa no ouvinte. “Abominação” já soa como algo muito forte. “Abominação a Deus”, então, multiplica esse peso por infinito. Algo descrito assim, portanto, só pode ser terrível. Não há mais discussão. Mas de onde tiramos a noção de que um mero ato sexual é abominado pelo Criador do universo?

Bom, se o debate se dá, como dito, entre irmãos de fé, e essa fé se baseia na palavra de Deus, vamos a ela conferir a resposta. Jesus, o Verbo encarnado para os cristãos, nunca usou a expressão “abominação ao Senhor”, até onde se tem registro (falou apenas em “abominação desoladora”, em uma citação ao profeta Daniel, mas isso já é assunto para outra conversa). Tampouco era a moral sexual um tema central em sua pregação. Mas, indo além, consideremos a Bíblia como um todo.

É na Lei Mosaica e nos Provérbios de Salomão que encontramos a palavra cujo caráter temível tem o poder de encerrar qualquer discussão. No livro do Levítico, “abominação ao Senhor” é repetido constantemente, como um refrão para proibições específicas.

“Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; é abominação.” (Levítico 18:22)

Nos Provérbios, ganha caráter mais abstrato e filosófico, referindo-se comumente a situações de injustiça.

“Balança enganosa é abominação para o SENHOR, mas o peso justo é o seu prazer.” (Provérbios 11:1)

Detenhamo-nos por um momento no Levítico. O livro é um conjunto de leis cujo propósito é a santificação do povo de Deus, ou seja, sua separação dos demais povos da terra em termos de pureza e comportamento. Tudo ali visa preservar o povo limpo para os rituais sagrados. O que torna alguém impuro o proíbe de tomar parte nos rituais e na congregação. Uma mulher que tivesse um fluxo de sangue ou um homem que tenha tido contato com essa mulher deveria manter-se afastado por determinado tempo, após realizar sua limpeza. Outras práticas mais “abomináveis” implicariam na separação definitiva de seus autores da congregação, visto que o povo de Deus deveria ser santo, como santo é o seu Deus.

Chegamos então à abominação ao Senhor. A palavra original é “to’ebah” que, segundo a Bíblia de Estudos (Nova Versão Transformadora, página 217), indica forte desaprovação e desagrado. A ideia de algo abominável também nos remete a monstruosidade. Abominar algo é rejeitá-la ou aborrecer-se dela tão fortemente ao ponto do medo e/ou do nojo.

Mas o que pois é capaz de aborrecer tão fortemente a Deus, como se humano fosse, com medo de uma barata ou uma aranha??? Veja bem, estamos falando do Ser Supremo, mas inserindo nele uma reação humana (e não no sentido nobre), incompatível com o próprio conceito de Deus. O uso da “abominação” como justificativa bastante de uma proibição específica conceito é algo como: “Não pode. Por quê? Porque não. Mas por que não? Porque Deus fica muito, mais muito aborrecido.” Isso só faz sentido, como tentaremos explicar, em um estágio infantil da fé, em que se usa o medo como explicação da proibição.

“E nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem por nós. Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele.” (1 João 4:16)

“No amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz tormento; logo, aquele que teme não é aperfeiçoado no amor.” (1 João 4:18)

Aqui, faz-se necessário um importante parêntese. Não se trata de contrapor uma fé cristã, madura, a uma fé judaica, não cristã, imatura. Isso seria de um antissemitismo inaceitável. A leitura dos textos sagrados hebraicos não precisa necessariamente de um Novo Testamento para ser mais profunda que o “não porque não” legalista. Um estudioso dessa tradição, pela ótica não cristã, deve ter pensado, com toda a razão, ao passar pelos parágrafos acima: “a Torá é muito mais profunda do que você está fazendo parecer”. E isso era justamente o que, em outras palavras, o judeu Jesus defendia, em suas discussões com os religiosos de seu tempo. Por outro lado, são justamente pessoas do meio cristão que, hoje, com novo testamento e tudo, propõe o que ora chamamos de leitura infantil da Bíblia. Fecha parêntese.

Quanto mais específica é uma legislação, mais ela é frágil. Quanto mais geral, mais dificilmente ela se tornará ultrapassada. Mas também mais difícil será a sua compreensão, pois exigirá do leitor interpretação, bom senso, maturidade intelectual e, ao menos no caso da lei religiosa, espiritual.

Comparando, por exemplo, as duas fontes do Velho Testamento que se propõem a dizer o que aborrece a Deus, temos, de um lado:

“Todo inseto que voa, que anda sobre quatro pés será para vós outros abominação.
Mas de todo inseto que voa, que anda sobre quatro pés, cujas pernas traseiras são mais compridas, para saltar com elas sobre a terra, estes comereis.
Deles, comereis estes: a locusta, segundo a sua espécie, o gafanhoto devorador, segundo a sua espécie, o grilo, segundo a sua espécie, e o gafanhoto, segundo a sua espécie.
Mas todos os outros insetos que voam, que têm quatro pés serão para vós outros abominação.” (Levítico 11:20-23)

E, do outro:

“O caminho do perverso é abominação ao Senhor, mas este ama o que segue a justiça.” Provérbios 15:9

No exemplo de Levítico, temos uma norma direta e específica, de fácil compreensão e execução, enquanto, no provérbio de Salomão, fica por conta do leitor entender o que caracteriza o perverso e seu caminho e o que o que é a justiça. Por outro lado, séculos depois, o segundo texto ainda provoca o nosso interesse mais profundo, enquanto o primeiro, apenas curiosidade histórica. Quanto mais específica uma legislação, mas ela diz respeito às características do povo a que se dirige, seu tempo e local.

É por isso que o movimento que Jesus promove, quando questionado acerca da Lei, é de generalizá-la, desvendando o princípio que a norteia, e que deverá nortear de forma mais permanente a moral, de modo que essa não seja tão frágil às inevitáveis transformações do mundo ao longo do tempo.

“Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir.” (Mateus 5:17)

Cumprir é também completar. A lei não se completa pela sua expansão detalhista, mas pela sua síntese:

“Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento.
Este é o grande e primeiro mandamento.
O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.” (Mateus 22:37-40)

Todas as ações específicas proibidas pela Lei Sagrada estavam ligadas, de alguma forma, à idolatria. Ir contra a natureza da criação de Deus era, ao mesmo tempo, ir contra a própria natureza e à soberania do Criador e fazer mal a si mesmo. Assim, um homem que se deitasse com um homem como se fosse uma mulher, desonrava a própria natureza e ao seu Criador.

Mas, essa palavra não é para todos. Assim como Jesus, ao ensinar sobre o divórcio, afirmou que aquelas palavras não eram para todos, pois há uma diversidade de condições humanas para as quais aquela questão sequer se aplica.

“Jesus, porém, lhes respondeu: Nem todos são aptos para receber este conceito, mas apenas aqueles a quem é dado.
Porque há eunucos de nascença; há outros a quem os homens fizeram tais; e há outros que a si mesmos se fizeram eunucos, por causa do reino dos céus. Quem é apto para o admitir admita.” (Mateus 19:11,12)

Hoje, só quem tem medo ou não quer enxergar a realidade pode negar que é comum a homossexualidade ser inerente a natureza de alguns indivíduos. Digamos que esses indivíduos sejam homens (apenas para manter o exemplo de uma época em que sequer se preocupava em falar para mulheres). Pois bem, esses homens, quando se deitam com outros homens, não o estão fazendo como se este outro fosse uma mulher. Estão se deitando com outro homem porque sua atração natural é por homens. E, desconcertante que seja para os religiosos ortodoxos, nesse caso, desonrar sua própria natureza e contrariar a vontade do Criador seria se deitar com uma mulher sem sequer desejá-la, apenas para agradar os fiscais da vida sexual da comunidade.

Então vale tudo? E o que vamos fazer com essa tal liberdade?

“Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas.” (1 Coríntios 6:12)

Tudo pode, mas nada tem que. Converter algo em um “tem que” é fazer desse algo um deus. Um falso deus é todo comportamento que nos escraviza. O que nos escraviza nos faz sofrer. E o que nos faz sofrer não nos convém.

O que não nos convém é o que faz mal ao ser humano. Em termos de comportamento sexual, como em relação a tudo, o que não nos convém é aquilo que nos desonra, ou desonra ao próximo ou ao resto da criação, que são parte de nós, assim como somos parte de Deus. Uma lei mais ampla (completa) exige do seu seguidor, nos casos específicos, interpretação, maturidade intelectual e espiritual. E, para o crente, a orientação do Espírito será sempre mais confiável que qualquer livro de receitas.

Se ainda hoje podemos buscar algum sentido na extensa legislação do Levítico, o que deveria ser evitado era aquilo que fazia mal ao ser humano. Deus é amor, e o amor infinito e incondicional à criação, se é que pode se aborrecer, se aborrece daquilo que faz mal à própria criação. Portanto, Deus não se aborrece de algo por pura mania e birra, como o faz o homem. O que aborrece o Criador, em última análise, é o que faz mal à criatura.

sábado, 24 de julho de 2021

O VÍRUS DO INDIVIDUALISMO

Receber a notícia de que pessoas protestam contra o passaporte sanitário não é uma maneira agradável de começar o dia. É então tentador o caminho de amenizar essa realidade, supondo tratar-se de gente ignorante e sem estudos. Mas não: há cidadãos de países com invejáveis índices educacionais lutando para que a liberdade de escolha sobre tomar ou não vacina seja ainda acompanhada do direito de espalhar a doença.

A partir dessa constatação, poderia surgir facilmente um texto-desabafo permeado de descrença no ser humano, que levaria qualquer leitor à depressão. Mas quem não acredita na humanidade não precisa se dar ao trabalho de escrever um texto. Ideias saudáveis são a única vacina conhecida contra ideias doentias e, se plantamos aqui alguma ideia que se propõe positiva, é na esperança de que ela encontre terreno fértil para se reproduzir.

A propósito, a memética afirma que as ideias se propagam como vírus (daí vem a palavra “meme”). Nesse sentido, o individualismo é uma das ideias que mais hospedeiros angariou nos últimos dois séculos e meio. Está tão arraigado na mente de tantas pessoas que chega a causar uma interdição ideológica coletiva que parece imune ao próprio conhecimento objetivo.

Quando Adam Smith revolucionou o pensamento moral, em 1776, propondo que a busca pelo interesse individual é o melhor motor para o bem-estar coletivo, vivia-se um tempo em que o conhecimento, necessário à promoção do bem geral pelo governo, era muito escasso. Nesse contexto, era possível mesmo que melhor fosse, para o corpo social, deixar cada um cuidar de seus próprios problemas, comparado a confiar o destino de todos nas mãos de um monarca, com seus caprichos e mudanças de humor.

Mas hoje a informação é incomparavelmente mais abundante, e segue aumentando exponencialmente. Os governos, além de mais descentralizados, investem bilhões na produção de conhecimento que embase suas decisões. E a própria evolução da ciência econômica, que nasceu com Smith, deu à luz conceitos que desmontam a ideia-base daquele autor, a saber, a de que a busca pelo próprio interesse gera automaticamente o bem coletivo.

Adam, Adam, meu querido Adam, talvez sua afirmação ainda fosse válida se cada decisão individual não tivesse consequências para outas pessoas. Vivemos, porém, em sociedade, os seres humanos não são ilhas. Mercados podem falhar, entre outros motivos, porque uma decisão de consumo, tomada por um agente, comumente influencia, para o bem ou para o mal, aqueles que estão à sua volta. O nome disso é externalidade, uma das chamadas falhas de mercado.

São inúmeros os exemplos de externalidades positivas e negativas, mas vamos nos ater ao mais importante neste 2021, utilizando uma questão de concurso público para economista (Cesgranrio, 2008).

Ela dizia: “Uma das razões importantes para a presença do estado na economia é a existência de externalidades negativas e positivas. A esse respeito, pode-se afirmar que:”. O gabarito era a letra E: “quando uma pessoa não se vacina contra uma doença infecciosa está impondo aos demais uma externalidade negativa.”

Um negacionista poderá dizer “eu não concordo”, mas isso não o impediria de errar a questão se não marcasse a letra E. Da mesma forma, a sua discordância não o impedirá de fazer mal a si e aos outros tomando a decisão de não se vacinar.

Nesse sentido, é doentia a ideia que promove o direito de não se vacinar como “liberdade inalienável sobre o próprio corpo”. Isso não é apenas lutar pelo direito de ser imbecil, não cuidando da própria saúde. É também fazer questão de ser uma pessoa ruim e prejudicial à saúde coletiva. É não tomar conhecimento deliberadamente da existência de outras pessoas em volta.

Na verdade, não se trata nem mesmo da escolha de fazer mal ao próximo, mas da prerrogativa de que isso sequer é problema seu. E é aí que mora a interdição ideológica. Tão infectados estamos pelo individualismo, que perdemos a capacidade de raciocinar coletivamente. Esse bloqueio impede a passagem da consciência de que eu sou responsável pelo bem do outro. Conheço apenas o meu próprio interesse, território de que sou soberano, não cabendo a mais ninguém dizer o que é bom para mim.

O discurso de alguém que sabe que fala para pessoas com essa visão de mundo destaca, demagogicamente, o caráter “não obrigatório” da vacina. Como se houvesse mesmo alguém propondo que soldados armados conduzam as pessoas aos postos de vacinação.

Não cabe a um governante se gabar de uma “não obrigatoriedade” que nunca foi questionada. É óbvio que se vacinar não é obrigatório. Mas escolher não se vacinar é um atitude de descaso e desrespeito com a saúde do próximo, e isso deveria ser sempre lembrado pelas autoridades.

Portanto, o que cabe ao governante e, mais do que isso, é seu dever, é informar à população que o risco de uma vacina é incomparavelmente menor que o risco de não tomá-la. Como é dever de um governo destacar que, se ele mesmo aprovou uma vacina, ela é segura. Porque, se não fosse segura, não deveria ter sido aprovada. Essa é uma responsabilidade de que o Estado não pode eximir-se. Se um governo tivesse a opção de abster-se suas responsabilidades e delegá-las aos indivíduos, ele não precisaria existir.

Mas, se as coisas não são como gostaríamos que fossem, fica mesmo a cargo da própria sociedade lembrar que a vacina é muito mais que um direito. É um dever cidadão, tanto quanto não jogar lixo na rua, não andar pelado na praça ou não depredar patrimônio público. A minha saúde é também a sua saúde, e vice-versa. Não há como dividir a saúde pública em pedaços e vendê-la para consumo individual.

sábado, 17 de julho de 2021

O PROBLEMA DA PROSPERIDADE NO MEIO CRISTÃO

O problema não é a prosperidade, mas o que se entende por prosperidade. Para o discípulo de Jesus, prosperidade não significa ter muito, mas precisar de pouco. O cristão que adota a prosperidade como valor e a entende como acúmulo de bens de luxo não está observando com cuidado o ensino de Cristo.

domingo, 4 de abril de 2021

OS PASTORES E OS LOBOS


"O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância. Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas. O mercenário, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê vir o lobo, abandona as ovelhas e foge; então, o lobo as arrebata e dispersa. O mercenário foge, porque é mercenário e não tem cuidado com as ovelhas." João 10:10-13

O mercenário não tem cuidado com as ovelhas. Lideranças religiosas que, em plena pandemia, conduzem os fiéis para aglomeração, sob pretexto do culto, não têm cuidado com as ovelhas. Estão condenando muitas delas à morte com isso. Não são pastores.

Estes tempos tão dolorosos nos deram pelo menos isto: a oportunidade de enxergar claramente quem são os verdadeiros pastores e quem são os lobos. São pastores aqueles que orientam seus liderados aos cuidados necessários, consigo e com o próximo. Os que entendem que as atividades religiosas devem continuar de forma não presencial. Os que não reivindicam na justiça o "direito" de colocar sua igreja em risco.

Porque o culto que é atividade essencial para o crente não se dá em construções, mas dentro do coração. Não é preciso sair de casa para que ele aconteça: seu corpo é o templo.

"Disse-lhe Jesus: Mulher, podes crer-me que a hora vem, quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. (...) Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores." João 4:21, 23

Figuras religiosas falam muito em jejum, mas não percebem o óbvio: o jejum que nos é proposto agora não é de comida, mas de sair de casa sem necessidade. Não é sacrifício sem sentido, mas para salvar vidas. Porque, como escrito em Eclesiastes 3, há tempo para tudo nesta vida.

No entanto, desaprendemos a nos adaptar às circunstâncias, não sabemos mais parar. Não conseguimos mais ficar em casa olhando para dentro de si. Somos viciados na agitação da vida que não para, naturalizamos esse estado de coisas e, pior, achamos que temos direito a ele.

Isso é fruto de nosso sistema viciado, em que as pessoas servem à economia, e não o contrário. Em que a sociedade serve o mercado, e não o contrário. Ora, esse modelo de sociedade não funciona mais, se é que já funcionou. Não dará conta do desafio presente, nem dos futuros. O planeta não vai aguentar o ritmo de uma civilização que não sabe parar.

Quanto ao Brasil... Bom, um dos grandes problemas é que aqui há muita gente dizendo "Senhor, Senhor!" e poucos fazendo a vontade do Pai.

"Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus." Mateus 7:21

Fazer a vontade de Jesus é amar o próximo, e amar o próximo é preocupar-se com a sua saúde E com seu sustento. É preciso garantir o isolamento para conter o vírus e suas intermináveis variantes. É preciso que as atividades não essenciais que geram aglomeração sejam interrompidas. É preciso socorrer as pessoas que não puderem trabalhar e também os negócios que não puderem se manter. É necessário auxílio emergencial de 600 reais até o fim da pandemia. É preciso, portanto, que os setores mais ricos da sociedade garantam o financiamento do Estado de forma sustentável. Para isso, faz-se mister uma reforma tributária justa, que resulte em um sistema que transfira recursos dos abastados para os necessitados, e não o contrário, como acontece no atual.

Menos do que isso não vai evitar que a presente calamidade continue e se torne ainda pior.

sábado, 12 de dezembro de 2020

A POLÍTICA É INESCAPÁVEL

A política é inescapável. Por isso, se, por um lado, entregar sua alma a ela nunca dá em boa coisa, por outro, odiá-la é perder energia em vão. Ela é ferramenta. Pode tanto servir à dominação de um ser humano por outro quanto impedir essa mesma dominação. Sem ela, há a dominação do mais fraco pelo mais forte, dominação essa que ela pode potencializar, mas que só ela pode impedir. Nesse sentido, a política será tão virtuosa quanto mais seja movida pelo intuito de buscar a igualdade de poder entre os indivíduos, de modo que um não possa dominar o outro.

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

DIFERENÇA ENTRE IDEOLOGIA E PROSELITISMO IDEOLÓGICO

O grande equívoco no debate sobre ideologia no ensino é confundir ideologia com proselitismo ideológico. Este último, sim, é sempre a tentativa de colonização do outro e, por isso, indesejável. O antídoto para a colonização do outro é a liberdade do professor e do aluno. E, no, entanto, aquele que defender a educação libertária, certamente será taxado de "ideológico". De fato é: o respeito à liberdade do aluno é ideologia, como também é ideológica qualquer tentativa de determinar o que deve e o que não deve ser ensinado nas escolas. O movimento "escola sem partido", ao propor uma inaceitável intervenção do estado no trabalho do professor, filia-se escancaradamente a uma ideologia ultraconservadora, mesmo vendendo-se como combate à “ideologia”. Não é o caráter ideológico de um discurso que é bom ou ruim, mas o conteúdo desse discurso e dessa ideologia.

A ideologia, como a política, não é exclusividade da burocracia partidária. Religião é ideologia. Os direitos humanos e qualquer direito ou lei é ideologia. A pátria é uma ideologia. O jornalismo, mesmo o mais honesto, é necessariamente ideológico, a começar pela escolha do que deve ser noticiado ou não. E até uma escola que ensine apenas matemática terá sua ideologia, ao escolher alienar o estudante das questões sociais, com todas as consequências que essa lacuna trará para a sociedade.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

UM SALMO

Saber que lá é melhor

E que lá começa aqui

Perder o medo da morte

Sem criar medo da vida

Saber que em Suas forças

Por tudo posso passar

Perder o medo da morte

Sem jamais negar a vida

Viver o tempo presente

Construindo o que se dá

Vencer o medo e a morte

Coragem! Viver a vida

Saber que um dia ela vem

Sem motivo pra apressar

Sem ter medo da chegada

Apreciar o caminho

Um dia de cada vez

Rumo ao sábio coração

Perder o medo da morte

Sem deixar de amar a vida

quarta-feira, 22 de julho de 2020

APARENTE CONTRADIÇÃO NA BUSCA DO EQUILÍBRIO


Neste mundo em que vivemos a ilusão da individualidade, a busca pela harmonização entre o bem estar próprio e o bem estar do próximo, em busca do equilíbrio desejável, não é tarefa óbvia. Já sabemos que a saúde emocional pede que separemos o que é nosso do que é do outro. Sabemos também que a saúde espiritual será maior na medida e que, superando o ego, entendamos que “eu e o universo somos um”. Ora, a questão que surge, desafiando nosso entendimento é: há aí uma contradição?

Só aparente. Saber que o que é do outro não é seu não impede de ajudar esse outro. Pelo contrário, lhe dá uma visão mais nítida para que essa ajuda seja feita de forma mais segura, dentro do equilíbrio acima mencionado. Essa medida (não óbvia, como dito) é a que deve ser buscada. É a melhor para si (pois não nos coloca em posições de sacrifício vão, que nos prejudiquem ou nos destruam, sem que um bem maior seja necessariamente alcançado) e também para o próximo. O que é seu é o que te cabe e é possível fazer, e isso inclui a sua ajuda. Ajudar ao próximo, assim, tem de ter por condição não fazer mal ao todo, e isso inclui a si mesmo. Caso contrário, alimentamos o ego, ainda que o de outro. Fazer mal a si é fazer mal ao outro, e ao todo.

Em tempo: o auto-esvaziamento, a kenosis, é a superação do ego em nome do bem maior. O sacrifício, nesse sentido, nunca será a regra, mas a exceção: é o abrir mão do próprio interesse quando ele se contrapõe ao bem maior. Um exemplo bem fácil e atual: abrir mão da liberdade de sair à rua superfluamente para não contribuir para o agravamento da pandemia.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

AMIGO


Amigo seria o mais importante dos títulos de nobreza, não fosse a leveza do sentimento mais puro, muito acima de mesquinharias.

Amigo é o companheiro em cuja presença o tempo para.

Amigo é o amparo que nos equilibra em meio às maiores dificuldades. É o que surge oportuna e magicamente, antes mesmo de chamarmos.

Amiga é a data mais bela de todo o calendário.

A mãe amiga é mais que mãe: é o abraço que cura toda tristeza. O pai amigo é presença que conforta o coração, mesmo muito após ter deixado este mundo.

O irmão amigo é mais que irmão: é o refúgio nas tempestades da vida. E o amigo amigo também é mais que amigo, é irmão.

Amiga é a melhor companhia, que torna qualquer momento colorido. Um companheiro é amigo quando só nos pode fazer bem.

Amigo é o animal, puro como criança, cuja maior ambição é estar ao nosso lado.

Amiga é a Terra, que de graça nos dá de comer, e sustenta nossas pisadas.

Amigo é o Deus que, incrível, já não nos chama servos, mas amigos, concedendo-nos o maior dos títulos, por pura graça e amor.

Pois assim, como enfim aprendemos, tão simples e infinito, faz-se nascer um amigo.