O documentário “Noite e Neblina” (1956), do francês Alain Resnais, foi o primeiro produzido sobre o Holocausto. A obra teve como intuito manter viva a memória de todos os horrores do acontecido e sua interpretação não como acidente histórico, mas como consequência do perigo fascista que sempre pode voltar a acontecer, em qualquer época, em qualquer lugar.
quinta-feira, 31 de maio de 2018
DEMOCRACIA E RESPONSABILIDADE
O documentário “Noite e Neblina” (1956), do francês Alain Resnais, foi o primeiro produzido sobre o Holocausto. A obra teve como intuito manter viva a memória de todos os horrores do acontecido e sua interpretação não como acidente histórico, mas como consequência do perigo fascista que sempre pode voltar a acontecer, em qualquer época, em qualquer lugar.
IMPOSTOS
O problema do sistema tributário não é o tamanho da carga tributária. São dois os problemas: se sua distribuição é justa (quem paga mais e quem paga menos imposto) e para onde vai o imposto. Porque o imposto não atende às necessidades do povo? Muito mais do que pela corrupção, é pelas prioridades orçamentárias que o dinheiro público não atente às necessidades públicas. O orçamento público atende proritariamente aos mais ricos e, antes dos políticos, aos credores públicos, do setor privado.
Se não tomarmos consciência da necessidade de revermos as prioridades orçamentárias ao invés de simplesmente pedirmos menos impostos, os impostos que conseguirmos reduzir serão justamente os que ainda financiam o já fraco atendimento às necessidades da população. Estaremos jogando contra nossos próprios interesses e novamente sendo massa de manobra, como em 2016, 2015, 2013, 1964...
quarta-feira, 16 de maio de 2018
CONCEITOS DE CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE
1) “Civilização é a exterminação dos bárbaros”.
Esse é o conceito mais reacionário e ultrapassado de civilização, mas ainda forte no discurso de muita gente. Segundo ele, em suma, bárbaro é o outro, aquele que não sou eu. Eu posso eliminar o outro porque ele é bárbaro e eu sou civilizado. Tal postura resulta em um círculo vicioso, pois se o bárbaro também pensar assim, também vai me achar digno de ser exterminado. “Que barbaridade!”, direi eu, e então concluirei: “Estão vendo como eles eram bárbaros mesmo?” Essa lógica binária e burra acaba assim gerando conflitos intermináveis ou, quando uma parte é mais forte que a outra, massacres. Foi segundo esse princípio que as potências europeias empreenderam genocídios em suas colônias na África, incluindo o extermínio dos hererós (da Namíbia) pelos alemães, entre 1904 e 1907, que serviu de modelo para o genocídio dos judeus pelos nazistas.
2) “Bárbaro é aquele que acredita em barbárie”.
A definição do antropólogo Lévi-Strauss (1908-2009) é o extremo oposto da anterior, mas também é problemática. Se o conceito de bárbaro não existir, o que dizer de genocídios e campos de concentração?
3) “Bárbaro é aquele que crê que uma população ou um ser não pertencem plenamente à humanidade e merecem tratamentos que eles mesmos recusariam firmemente aplicar a si mesmos”.
Por fim, uma terceira visão sobre civilização e barbárie, de Tzvetan Todorov, é a que defendemos aqui. Essa noção permite entender que a barbarização do outro: sua desumanização. Esta, por sua vez, permite que se cometam contra ele atos bárbaros. Permite, enfim, a aniquilação do outro. Permitiu o Holocausto e demais genocídios de nossa História.
Bibliografia:
GRESH, Alain. “Da Batalha de Termópolis ao 11 de Setembro”. Le Monde Diplomatique Brasil, janeiro de 2009.
sexta-feira, 4 de maio de 2018
RAÍZES DO ÓDIO
3 RAZÕES POR QUE O LINCHAMENTO É NEFASTO
Erro tipo 2 – Inocentar o réu, caso ele seja culpado.
Sob a possibilidade de pena de morte, isso fica ainda mais óbvio. Nesse caso, o erro tipo 1 é irreparável, sendo, em si, um crime hediondo.
Mas também quando inexiste a pena de morte, como no sistema brasileiro, o erro tipo 1 é pior que o erro tipo 2, ou seja, é preferível absolver um culpado a condenar um inocente.
Lembremos que, se o linchamento físico é a maior das barbáries, existe ainda o linchamento moral, que também causa danos irreparáveis às suas vítimas.
Para evitar a prática de qualquer tipo de linchamento, físico ou moral, as democracias adotam como princípio a presunção de inocência.
O “garantismo” é uma forte característica da Constituição de 1988:
TÍTULO II
DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS
CAPÍTULO I
DOS DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
(...)
LV - aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes
LVII - ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória;
A democracia é o regime que se caracteriza pelo governo do povo. Nele, as decisões são tomadas pelo voto da maioria, mas democracia não pode ser confundida com uma ditadura da maioria!
Os direitos e garantias fundamentais, portanto, visam proteger as minorias da eventual fúria destruidora das maiorias.
O linchamento é evitado quando há o devido processo legal. O argumento dos linchadores quase sempre evoca a “lentidão” da justiça. Ora, assegurar que um inocente não seja condenado é algo que exige mesmo algum tempo. A justiça deve, portanto, procurar ser o mais rápida possível, mas sem que nenhum dos ritos necessários à sua assertividade se perca. Uma justiça rápida demais erra muito, e aumenta consideravelmente as chances de se cometer injustiça. Nenhuma alternativa à justiça lenta resolve seus problemas sem gerar outros maiores. Quando há pressa excessiva de se condenar o acusado, os fatos não são examinados com o devido cuidado.
Se houver acontecido o crime em questão e inocentes forem condenados, o criminoso verdadeiro automaticamente estará solto e livre de qualquer acusação. Na hipótese de o crime ter de fato acontecido, condenar um inocente implica também absolver um culpado.
Por isso tudo, o contraditório e a ampla defesa são necessários. Por isso, nunca devemos nos esquecer de que todo cidadão é inocente até que se prove o contrário. Há outros modos de tornar a justiça mais eficiente possível, mas SEM abrir mão das garantias que não servem para proteger bandidos, mas para proteger a todos nós.
UM POEMA
quinta-feira, 12 de outubro de 2017
REFLEXÃO SOBRE EZEQUIEL 47
Ezequiel 47:1-12
1
Depois disto, o homem me fez voltar à entrada do templo, e eis que saíam águas de debaixo do limiar do templo, para o oriente; porque a face da casa dava para o oriente, e as águas vinham de baixo, do lado direito da casa, do lado sul do altar.
2
Ele me levou pela porta do norte e me fez dar uma volta por fora, até à porta exterior, que olha para o oriente; e eis que corriam as águas ao lado direito.
3
Saiu aquele homem para o oriente, tendo na mão um cordel de medir; mediu mil côvados e me fez passar pelas águas, águas que me davam pelos tornozelos.
4
Mediu mais mil e me fez passar pelas águas, águas que me davam pelos joelhos. Mediu mais mil e me fez passar pelas águas, águas que me davam pelos lombos.
5
Mediu ainda outros mil, e era já um rio que eu não podia atravessar, porque as águas tinham crescido, águas que se deviam passar a nado, rio pelo qual não se podia passar.
6
E me disse: Viste isto, filho do homem? Então me levou e me tornou a trazer à margem do rio.
7
Tendo eu voltado, eis que à margem do rio havia grande abundância de árvores, de um e de outro lado.
8
Então, me disse: Estas águas saem para a região oriental, e descem à campina, e entram no mar Morto, cujas águas ficarão saudáveis.
9
Toda criatura vivente que vive em enxames viverá por onde quer que passe este rio, e haverá muitíssimo peixe, e, aonde chegarem estas águas, tornarão saudáveis as do mar, e tudo viverá por onde quer que passe este rio.
10
Junto a ele se acharão pescadores; desde En-Gedi até En-Eglaim haverá lugar para se estenderem redes; o seu peixe, segundo as suas espécies, será como o peixe do mar Grande, em multidão excessiva.
11
Mas os seus charcos e os seus pântanos não serão feitos saudáveis; serão deixados para o sal.
12
Junto ao rio, às ribanceiras, de um e de outro lado, nascerá
toda sorte de árvore que dá fruto para se comer; não fenecerá a sua folha, nem
faltará o seu fruto; nos seus meses, produzirá novos frutos, porque as suas
águas saem do santuário; o seu fruto servirá de alimento, e a sua folha, de
remédio.
*
A visão que Ezequiel nos apresenta ilustra a vida do que é nascido da água e do espírito, daquele que nasceu de novo e segue nascendo do alto. O significado é o que Nicodemos deveria conhecer, por ser mestre em Israel. Ele sabia as escrituras de cor, mas, para entender sua essência, era necessário nascer de novo.
O templo do Espírito Santo é o corpo daquele que crê. Dele saem rios de águas vivas. As águas que saem de todos os lados do templo batem nos calcanhares, depois nos joelhos e nos lombos do profeta, até que se torne um rio que ele não poderia atravessar. O texto nos ensina o desapego do controle. Quando queremos controlar as águas que sobem, deixamo-na nos calcanhares, para conseguirmos dar conta dela, adequá-las aos nossos planos e ilusão de controle. Mas o controle não é nosso, é de Deus. Nós somos parte, e nossa capacidade de apreender a realidade é parcial. Deus é o todo e é onisciente. O plano de Deus é perfeito, o nosso é imperfeito. Mesmo que as coisas não sejam como gostaríamos, podemos descansar, pois ele está no controle. Podemos relaxar e nadar.
É o Espírito Santo que ensina a nadar. E nos ensina enquanto estamos nadando, não é preciso aprender primeiro para nadar depois. Não se preocupe com o que haveis de dizer, pois é o Espírito Santo que coloca a palavra na sua boca. É o Espírito Santo que guia o crente, assim como o homem conduz Ezequiel na visão, o leva e o torna a trazer à margem do rio. Aquele que é nascido do espírito é como o vento, que sopra onde quer, mas não sabemos de onde vem, nem para onde vai.
As criaturas que vivem em enxames viverão por onde quer que passe o rio. Os pescadores a ele se chegarão e encontrarão ali abundância de alimento. O rio está em você e você está no rio. Você é o rio. Podemos falar a multidões e estádios cheios, se for da vontade de Deus. Se Deus quiser que preguemos nos confins do mundo, nós iremos, assim como Jonas pregou em Nínive, querendo ou não.
Mas não precisamos planejar coisas grandiosas, muito menos condicionar a santidade à construção de grandes torres que não conseguimos terminar. Não devemos pensar “eu não posso”, mas nem tampouco cair no “eu tenho que”. Se você não está nos “confins do mundo”, é porque essa não é a vontade de Deus para você. Na maior parte das vezes, o “falar às multidões” é sem perceber, pois não estamos no controle. Se o plano de Deus é que falemos a uma só pessoa, ali teremos deixado a semente que atingirá multidões, no devido tempo, o tempo de Deus. Quando o amor de Deus está em nós, até o nosso olhar evangeliza. Possivelmente, não ficaremos nem sabendo do bem que fazemos neste mundo. Mas, por vezes, a generosidade de Deus nos permite a inesperada dádiva de ver crescer o fruto da árvore cuja semente nós deixamos pelo caminho.
O versículo 12 nos remete ao Salmo 1, que descreve a vida do justo, a árvore plantada junto a águas correntes, cuja folha não fenece e, no seu tempo, dá o seu fruto. Cada um tem seu tempo, que é o tempo de Deus, e não o nosso. Não há hierarquia: o que começa a trabalhar às seis não é melhor que o que começa às onze horas, pois o tempo de cada um é parte do plano de Deus. O tempo de Deus é o tempo Kayrós, o tempo dos homens é o cronos. Querer submeter ao cronos as coisas espirituais gera ansiedade. A ansiedade perturba o espírito e adoece o corpo. E o nosso corpo é o templo do Espírito Santo, de que devemos cuidar bem.
Por fim, o versículo 11 nos lembra que mesmo justo tem seus charcos e seus pântanos. O charco de um crente pode ser água saudável de outro, e vice-versa. Não há relação linear entre os charcos, não há caminhada padrão. O que é nascido do espírito é imperfeito e perfeito em sua imperfeição. É “já agora, ainda não”. Já agora rio, ainda não sem charcos. Já agora perfeito, pois parte do plano de Deus, mas ainda não acabado. Sonha o infinito, mas é limitado pela matéria. Querer burlar os limites da matéria não é agradar a Deus, é querer ser Deus. É se submeter a sacrifícios desnecessários, como se o de Jesus já não fosse o bastante. É buscar uma santidade inalcançável, pesada como as tábuas da lei, como as talhas de purificação, como a velha aliança. Ali, a alegria acabou.
Não precisamos buscar fora de nós uma santidade inalcançável. O jugo é suave, o fardo é leve. Se buscamos a Deus fora de nós mesmos, estamos procurando o milagre, e não a Jesus. É necessário nascermos de novo. Não encontraremos Deus fora de nós mesmos, ele está no nosso coração. Essa é a nova aliança, leve plena e de alegria, como uma festa em que o vinho nunca acaba.
O justo erra, pois é humano. E ser humano não é pecado, é vontade de Deus. Pede orientação a Deus pelo espírito, aprende com seus erros e segue caminhando para errar novos erros, aprender coisas novas e nascer de novo todos os dias. Essa é a vida eterna de sentido, que começa aqui; esse é o governo de Deus, que está no meio de nós.