A ação bárbara do exército israelense na Faixa de Gaza é um daqueles atos diante dos quais não se pode ficar indiferente. A cada notícia na televisão ou nos jornais, a cada nova e maior contagem de mortos, mais me choco, me revolto, e me sinto culpa pela passividade geral diante do massacre. Mas o pobre mortal não tem voz de decisão em tão grandes assuntos. Em sua própria individualidade, pouco pode fazer, senão se manifestar, protestar, gritar em qualquer meio de comunicação que lhe esteja disponível. Esperava, porém, ao menos um protesto coletivo contra a guerra.
E qual não foi a minha surpresa quando, na última sexta-feira, passando pela Cinelândia, vejo uma manifestação, não contra, mas de apoio ao “direito de defesa” de Israel. Um homem defendia ao microfone as razões do ataque. Adultos e crianças (que certamente pouco sabiam o que significava aquilo tudo) erguiam bandeiras de Israel e cartazes com dizeres como “O Estado de Israel tem o direito de se defender”.
Não me lembro o nome do movimento, mas seu mote era “o que você tem feito pela paz?”. Já tinha tomado conhecimento dele na comunidade virtual “Paz no Complexo do Alemão”, em que eles deixaram uma postagem fazendo propaganda da sua própria comunidade¹. Parecia apenas um movimento pacifista simpático a Israel, o que já soava paradoxal, diante dos últimos fatos.
Mas esse grupo autodenominado promotor da paz defendia os bombardeios e a invasão sangrenta da Faixa de Gaza. Por isso a cena na Cinelândia era bizarra: Um grupo de pessoas (se bem me lembro, todas de branco), falando em paz e defendendo a barbárie. Uma mulher, de voz afinada, cantou “Vem vamos embora que esperar não é saber...”, e depois “O que você tem feito pela paz”
Minha vontade foi de gritar pra aquela gente que eles eram uns caras-de-pau de falar em paz e ainda usar crianças inocentes para defender as suas idéias beligerantes. Mas como é de se esperar, não quis parecer maluco, nem correr o risco de atentar contra a liberdade de expressão.
Talvez o leitor ainda não tenha entendido o motivo de tanta indignação contra as idéias do referido grupo. Afinal, eles defendem (assim como o governo de Israel, e a Casa Branca) uma lógica reativa simples: se o Hamas atira foguetes contra Israel, este último tem de se defender. Dos inocentes que estiverem no caminho, espera-se apenas a compreensão.
Só que esse argumento deixa escapar duas coisas: a primeira é que a reação do exército israelense é quase sempre desproporcional (por exemplo, responder com rajadas de metralhadoras a crianças que atiram pedras). Desse modo, se um foguete da facção palestina mata um cidadão israelense, a resposta tem de matar centenas de palestinos.
A segunda verdade omitida é que, se um erro justifica o outro (e o argumento deles é esse), a ação do Hamas é legítima, pois Israel oprime o povo palestino há 60 anos. Não, essa opressão não justifica ataques do Hamas. Mas explica. Os foguetes palestinos não iniciaram essa questão.
Em 1948, a ONU criava naquele território um novo Estado. O slogan do projeto era: “Um território sem povo para um povo sem território”. Nele já podemos encontrar o erro: o povo palestino, desde o início, não foi sequer considerado. A ONU criou um Estado sem ter legitimidade para fazê-lo e ao longo dos anos Israel não respeitou sequer as fronteiras definidas pela entidade (sempre com a desculpa de autodefesa). Hoje não atende às determinações do Conselho de Segurança das Nações Unidas. O ataque segue, tendo matado já mais de duas centenas de crianças, tão inocentes quanto aquelas usadas na praça para erguer bandeiras e cartazes.
No entanto, a revolta com a guerra não pode justificar o nascimento de um sentimento de antissemitismo. A maior barbárie do século XX, o holocausto, não pode ser apagada de nossas memórias individuais e coletiva, ainda mais em um contexto como o das últimas três décadas, de ascensão do neofascismo.
Mas o Holocausto não foi um crime contra judeus apenas (também morreram ciganos, eslavos, homossexuais). Foi, antes de tudo, um crime contra seres humanos. Ele não dá carta branca para Israel desrespeitar os direitos humanos, nem pode servir de freio aos protestos do resto do mundo contra a violência atual.
Não sou contra os clichês, as verdades mais óbvias são aquelas que mais precisam ser repetidas. Portanto, na conclusão deste texto, quero enfatizar que um erro não justifica o outro. Parta de onde partir, e seja qual povo atingir, a barbárie é detestável. Ela não tem religião, etnia, ou nacionalidade. O terrorismo do Hamas que fere uma pessoa que seja, o terrorismo de Estado israelense que mata centenas (no último mês) ou milhares (ao longo dos anos) e o Holocausto, que ceifou milhões de vidas, são todos barbárie e, por isso detestáveis. Um não justifica o outro, antes têm mais semelhanças entre si do que antagonismos.
Leandro Coutinho Murad
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
A CONSCIÊNCIA NEGRA
"Hoje não é dia do negro. Hoje é dia da consciência negra, dia de se discutir a questão negra."
O pensamento acima é de Martinho da Vila, dito em uma entrevista hoje, Dia da Consciência Negra.
É bem verdade que o leigo, especialmente o branco leigo, tem certa dificuldade em entender o que seja a consciência negra. Um pode dizer: "Que hoje seja Dia de Zumbi eu entendo. Mas afinal, o que é dia da Consciência Negra?"
Tomei por desafio responder a essa pergunta. Talvez, por ser historiador, a melhor resposta que encontrei penda para o meu lado. A meu ver, a consciência negra é a consciência histórica do negro. Histórica em seu sentido amplo, não dizendo respeito apenas ao passado, mas ao tempo presente, e às perspectivas do futuro.
O brasileiro deve saber que a situação atual do negro é resultado da nossa História. A consciência do passado é que nos permite celebrar nossos heróis, como Zumbi e João Cândido, o Almirante negro, líder da Revolta da Chibata. Digo "nossos heróis" porque são heróis da liberdade, e não apenas dos negros. A necessidade de afirmação da atuação de negros na História se torna necessária pelo fato de a disciplina histórica ter uma tradição secular de eurocentrismo.
A consciência da História do Negro no tempo presente é a consciência política. É o brasileiro, em geral, e o negro, em particular, saberem que medidas devem ser tomadas para diminuir e erradicar a desigualdade racial. É saber que a luta passada continua hoje.
A consciência das perspectivas futuras é saber o que desejamos construir para as relações raciais. É o brasileiro, em geral, e o negro, em particular, saberem se querem uma viver em uma sociedade igualitária, em que a questão racial seja, de fato superada.
A questão racial não é a única do Brasil. A ela somam-se a questão do índio, a questão do nordestino, a questão ambiental, etc. A questão racial não é maior do que a questão social, e o brasileiro, em geral, e o negro, em particular, não devem perder de vista essa questão maior.
A questão social é também mais difícil de resolver do que a racial, pois esta implica em tirar negros da camada inferior da sociedade e colocá-los no alto e, da mesma maneira, tirar alguns brancos do alto e colocá-los um pouco mais em baixo, de modo que haja homogeneidade em todas as camadas. Já resolver aquela questão maior, a social, implica em redistribuir toda a renda, de modo que haja apenas uma camada social, ou pelo menos uma distribuição de renda bem mais justa.
Entretanto, não se pode tampouco cair na cilada reacionária de ignorar a questão racial. Ainda vivemos em uma sociedade de racismo cruel, em que, por exemplo, as mortes de muitos negros não são nem investigadas, se simplesmente a polícia alegar que eram bandidos.
Nesse sentido, o simples fato de haver um dia para discutirmos a questão negra já é um grande avanço.
Leandro Coutinho Murad
O pensamento acima é de Martinho da Vila, dito em uma entrevista hoje, Dia da Consciência Negra.
É bem verdade que o leigo, especialmente o branco leigo, tem certa dificuldade em entender o que seja a consciência negra. Um pode dizer: "Que hoje seja Dia de Zumbi eu entendo. Mas afinal, o que é dia da Consciência Negra?"
Tomei por desafio responder a essa pergunta. Talvez, por ser historiador, a melhor resposta que encontrei penda para o meu lado. A meu ver, a consciência negra é a consciência histórica do negro. Histórica em seu sentido amplo, não dizendo respeito apenas ao passado, mas ao tempo presente, e às perspectivas do futuro.
O brasileiro deve saber que a situação atual do negro é resultado da nossa História. A consciência do passado é que nos permite celebrar nossos heróis, como Zumbi e João Cândido, o Almirante negro, líder da Revolta da Chibata. Digo "nossos heróis" porque são heróis da liberdade, e não apenas dos negros. A necessidade de afirmação da atuação de negros na História se torna necessária pelo fato de a disciplina histórica ter uma tradição secular de eurocentrismo.
A consciência da História do Negro no tempo presente é a consciência política. É o brasileiro, em geral, e o negro, em particular, saberem que medidas devem ser tomadas para diminuir e erradicar a desigualdade racial. É saber que a luta passada continua hoje.
A consciência das perspectivas futuras é saber o que desejamos construir para as relações raciais. É o brasileiro, em geral, e o negro, em particular, saberem se querem uma viver em uma sociedade igualitária, em que a questão racial seja, de fato superada.
A questão racial não é a única do Brasil. A ela somam-se a questão do índio, a questão do nordestino, a questão ambiental, etc. A questão racial não é maior do que a questão social, e o brasileiro, em geral, e o negro, em particular, não devem perder de vista essa questão maior.
A questão social é também mais difícil de resolver do que a racial, pois esta implica em tirar negros da camada inferior da sociedade e colocá-los no alto e, da mesma maneira, tirar alguns brancos do alto e colocá-los um pouco mais em baixo, de modo que haja homogeneidade em todas as camadas. Já resolver aquela questão maior, a social, implica em redistribuir toda a renda, de modo que haja apenas uma camada social, ou pelo menos uma distribuição de renda bem mais justa.
Entretanto, não se pode tampouco cair na cilada reacionária de ignorar a questão racial. Ainda vivemos em uma sociedade de racismo cruel, em que, por exemplo, as mortes de muitos negros não são nem investigadas, se simplesmente a polícia alegar que eram bandidos.
Nesse sentido, o simples fato de haver um dia para discutirmos a questão negra já é um grande avanço.
Leandro Coutinho Murad
domingo, 14 de setembro de 2008
TRABALHO
Até 1888, nosso país tinha sua economia baseada no trabalho escravo. Essa realidade, ao contrário do que possa parecer, não está muito distante da nossa e, infelizmente, tal postulado não serve apenas para o aspecto cronológico. No Brasil contemporâneo, o trabalho é uma questão com problemas cuja grandeza é diretamente proporcional à urgência de suas soluções.
O século XX foi um período de grandes conquistas dos trabalhadores, notadamente a instituição da CLT, em um momento em que a questão trabalhista deixou de ser caso de polícia, tornando-se uma das preocupações obrigatórias do Estado. Hoje, no entanto, este último pouco se esforça em ver uma realidade ainda carente.
Esse quadro é composto de sérios problemas. O trabalho escravo subsiste sob a égide do poder econômico e militar dos proprietários de terra. De modo semelhante, o trabalho infantil é explícito, no campo e na cidade. Por fim, muitos brasileiros vivem na informalidade, à margem dos direitos adquiridos. Diante disso, como garantir que o trabalho seja uma atividade digna para todos, e não apenas para uma parcela afortunada da sociedade?
O primeiro passo para mudar esses fatos é expor as feridas. Conhecendo os problemas profundamente, a sociedade terá menos propensão a tolerá-los. Nesse sentido, o papel das mídias é fundamental, tanto na denúncia como no debate. Mas o Estado tampouco pode se omitir. É preciso tirar o poder de quem descumpre a lei, fiscalizar e punir severamente quem, por exemplo, explora o trabalho escravo.
O pessimismo, no entanto, talvez seja o maior gerador da acomodação e da omissão. Uma vez que interesses eonômicos e conchavos políticos levam à inércia, os governantes (e também a sociedade) têm de se lembrar que a economia deve servir ao povo, e não o contrário. Em 1888, muitos diziam que a escravidão era uma ferramenta indispensável, um mal necessário. Hoje, não é aceitável que sejamos irresponsáveis e passivos diante de questões sociais e humanísticas. A universalização da dignidade do trabalhador não só é possível, como indispensável para o aperfeiçoamento da democracia ou, em outras palavras, para a "democratização" da democracia.
Leandro Coutinho Murad
O século XX foi um período de grandes conquistas dos trabalhadores, notadamente a instituição da CLT, em um momento em que a questão trabalhista deixou de ser caso de polícia, tornando-se uma das preocupações obrigatórias do Estado. Hoje, no entanto, este último pouco se esforça em ver uma realidade ainda carente.
Esse quadro é composto de sérios problemas. O trabalho escravo subsiste sob a égide do poder econômico e militar dos proprietários de terra. De modo semelhante, o trabalho infantil é explícito, no campo e na cidade. Por fim, muitos brasileiros vivem na informalidade, à margem dos direitos adquiridos. Diante disso, como garantir que o trabalho seja uma atividade digna para todos, e não apenas para uma parcela afortunada da sociedade?
O primeiro passo para mudar esses fatos é expor as feridas. Conhecendo os problemas profundamente, a sociedade terá menos propensão a tolerá-los. Nesse sentido, o papel das mídias é fundamental, tanto na denúncia como no debate. Mas o Estado tampouco pode se omitir. É preciso tirar o poder de quem descumpre a lei, fiscalizar e punir severamente quem, por exemplo, explora o trabalho escravo.
O pessimismo, no entanto, talvez seja o maior gerador da acomodação e da omissão. Uma vez que interesses eonômicos e conchavos políticos levam à inércia, os governantes (e também a sociedade) têm de se lembrar que a economia deve servir ao povo, e não o contrário. Em 1888, muitos diziam que a escravidão era uma ferramenta indispensável, um mal necessário. Hoje, não é aceitável que sejamos irresponsáveis e passivos diante de questões sociais e humanísticas. A universalização da dignidade do trabalhador não só é possível, como indispensável para o aperfeiçoamento da democracia ou, em outras palavras, para a "democratização" da democracia.
Leandro Coutinho Murad
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